Cardiotoxicidade em crianças: a vigilância cardíaca durante e depois do câncer

Criança em tratamento oncológico acompanhada pelo cardiopediatra para prevenir cardiotoxicidade em crianças

Cardiotoxicidade em crianças é o dano que alguns tratamentos contra o câncer, como a quimioterapia com antraciclinas e a radioterapia no tórax, podem causar no coração. O efeito mais conhecido é o enfraquecimento do músculo cardíaco, que pode surgir durante o tratamento ou anos depois. Por isso, a criança faz avaliação do coração antes, durante e depois da terapia, com ecocardiograma e eletrocardiograma, e mantém o acompanhamento por muitos anos.

Trabalho no Hospital da Criança de Brasília, um hospital público que atende crianças com câncer de toda a região. Desde 2016, faz parte da minha rotina vigiar e tratar o coração das crianças que recebem quimioterapia e radioterapia para os diversos tipos de câncer.

Esse cuidado tem nome: cardiotoxicidade. É o efeito que alguns desses tratamentos podem ter sobre o coração, e ele pode acontecer com frequência durante a terapia e deixar sequelas para o resto da vida. Fazer parte dessa jornada com as famílias é a parte mais gratificante da minha semana.

O que é cardiotoxicidade em crianças

Cardiotoxicidade em crianças é qualquer dano ao coração causado pelo tratamento do câncer. Os remédios e a radiação que combatem as células do tumor também podem atingir células saudáveis, e o músculo do coração é um dos tecidos mais sensíveis a alguns deles.

A forma mais conhecida é o enfraquecimento do músculo cardíaco, que passa a bombear o sangue com menos força. Mas o tratamento também pode afetar as valvas, o ritmo do coração, a membrana que o envolve (o pericárdio) e as artérias, além de favorecer pressão alta no futuro.

Quais tratamentos podem afetar o coração

Medicamentos de quimioterapia

As antraciclinas são um grupo de medicamentos de quimioterapia muito usados no câncer infantil, em leucemias, linfomas e vários tumores sólidos. Elas salvam muitas vidas e, ao mesmo tempo, são os medicamentos mais conhecidos por causar dano ao músculo cardíaco.

O risco aumenta com a dose acumulada ao longo do tratamento: quanto maior a soma das doses, maior a chance de alteração. Outras medicações usadas em oncologia, incluindo algumas terapias mais novas, também podem afetar o coração, cada uma de um jeito.

Radioterapia no tórax

Quando o campo da radioterapia inclui o tórax, o coração pode receber parte da radiação. Com os anos, isso pode afetar o músculo, as valvas, o pericárdio e as artérias coronárias. A combinação de radioterapia no tórax com antraciclinas soma os riscos.

Quem tem mais risco

Alguns fatores aumentam a chance de cardiotoxicidade:

  • tratamento em idade mais precoce;
  • dose acumulada mais alta de antraciclinas;
  • radioterapia que envolve o coração;
  • alteração no coração já existente antes do tratamento;
  • outros fatores ao longo da vida, como pressão alta, obesidade, colesterol alto e sedentarismo.

Como é o monitoramento do coração durante o tratamento

A vigilância começa antes da primeira sessão. A avaliação inicial inclui exame clínico, eletrocardiograma e ecocardiograma infantil, que mostra a força de contração do coração.

Esse primeiro exame serve de base para comparar todos os seguintes.

Durante o tratamento, o ecocardiograma é repetido em intervalos definidos pelo protocolo e pela dose recebida. Em algumas situações, exames de sangue que indicam sofrimento do músculo cardíaco ajudam a detectar alterações precoces.

Quando algo muda, discuto com a equipe de oncologia o que fazer, sempre pesando o benefício do tratamento contra o câncer.

Proteção do coração

Existem estratégias para reduzir o risco, como medicamentos que protegem o coração usados em alguns protocolos e ajustes na forma de administrar a quimioterapia. A escolha é feita pela equipe, caso a caso. O objetivo é tratar o câncer com o menor impacto possível sobre o coração.

Por que o acompanhamento continua depois do fim do tratamento

A cardiotoxicidade nem sempre aparece durante a terapia. Em muitas crianças, o coração fica bem no fim do tratamento e a alteração surge anos depois, às vezes na adolescência ou na vida adulta.

Momentos de maior exigência para o coração, como o estirão de crescimento, a gestação ou treinos muito intensos, podem revelar um problema que estava silencioso.

Por isso, quem recebeu antraciclinas ou radioterapia no tórax segue com avaliações periódicas por muitos anos, com intervalos definidos conforme o tratamento recebido. Esse seguimento é parte do trabalho de cárdio-oncologia pediátrica, que acompanha a criança desde o diagnóstico do câncer até a vida adulta.

O que a família pode fazer

  • guardar o resumo do tratamento oncológico, com os medicamentos e as doses totais recebidas;
  • manter as consultas de seguimento mesmo quando a criança está bem;
  • estimular atividade física regular, alimentação saudável e peso adequado;
  • medir a pressão arterial nas consultas e evitar o cigarro em casa e, no futuro, pelo próprio paciente.

Quando procurar atendimento

Durante e depois do tratamento, procure a equipe que acompanha a criança se surgirem cansaço fora do comum, inchaço nas pernas ou no rosto, palpitações ou queda no rendimento nas brincadeiras e na escola.

Procure o pronto-socorro ou ligue 192 (SAMU) se houver:

  • falta de ar em repouso ou ao deitar;
  • dor no peito;
  • desmaio;
  • batimentos muito acelerados com mal-estar, palidez ou suor frio.

Como acompanho a cardiotoxicidade em crianças e adolescentes

Além do trabalho no hospital, recebo crianças e adolescentes que já terminaram o tratamento no consultório da Clínica Neuromaster, em Águas Claras, e por teleconsulta, quando a família mora longe e já tem exames para revisar. A minha trajetória na cardiopediatria se cruza há anos com a dessas famílias, e acompanhar o coração dessas crianças depois da cura continua sendo uma parte importante do meu trabalho.

Perguntas frequentes sobre cardiotoxicidade em crianças

Toda criança que faz quimioterapia terá sequela cardíaca?

Não. A maioria das crianças termina o tratamento com o coração funcionando bem. O risco depende do tipo de medicamento, da dose acumulada, da radioterapia no tórax e da idade no tratamento. A vigilância existe justamente para identificar cedo as crianças que desenvolvem alguma alteração.

Cardiotoxicidade em crianças pode aparecer depois do fim do tratamento?

Sim. O efeito no coração pode surgir anos depois do fim da quimioterapia ou da radioterapia, às vezes na adolescência ou na vida adulta, inclusive durante uma gestação ou com treinos intensos. Por isso o acompanhamento cardiológico continua mesmo quando o câncer já está curado.

Meu filho terminou o tratamento. De quanto em quanto tempo ele faz ecocardiograma?

Depende do tratamento que ele recebeu. O intervalo entre os exames é definido pela dose acumulada dos medicamentos, pela radioterapia e pelos resultados anteriores, e varia de criança para criança. Leve ao cardiopediatra o resumo do tratamento oncológico, com os nomes dos medicamentos e as doses totais, para que ele planeje o seguimento.

A cardiotoxicidade tem tratamento?

Sim, e quanto mais cedo é identificada, mais opções existem. Quando o ecocardiograma mostra queda na força do coração, o cardiopediatra e o oncologista discutem juntos ajustes no tratamento e o uso de medicamentos que protegem o coração. A resposta varia de criança para criança, e algumas alterações podem ser permanentes.

Precisa de uma avaliação? Consultas presenciais na Clínica Neuromaster, em Águas Claras (Brasília, DF), e teleconsulta para todo o Brasil e o exterior.

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Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Em caso de emergência, procure o pronto-socorro ou ligue 192. Texto de responsabilidade do Dr. Alberth Tavares, cardiologista pediátrico, CRM-DF 16931, RQE 14409. Publicado em 20/05/2025, atualizado em 16/10/2026.

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