Pré-excitação ventricular em criança é um achado do eletrocardiograma que indica uma via elétrica extra entre os átrios e os ventrículos, chamada via acessória. Por ela, o estímulo chega aos ventrículos antes do esperado. Muitas crianças não têm sintomas, mas a via pode causar crises de taquicardia e, raramente, arritmias graves. A investigação com o cardiopediatra define o risco e se há indicação de tratamento, como a ablação por cateter.
Em dezembro de 2024, atendi no consultório uma criança que veio para uma avaliação cardiológica antes de uma cirurgia de adenoide. Era uma criança saudável, sem nenhuma queixa, com o histórico normal das doenças virais comuns da infância.
No eletrocardiograma pré-operatório, apareceu uma condição chamada pré-excitação ventricular: a parte de baixo do coração, os ventrículos, era ativada antes do esperado. Esse achado pode desencadear taquicardias e outras arritmias graves.
Ainda bem que essa família trouxe a criança para a avaliação, porque foi assim que descobrimos a alteração, sem que ela tivesse apresentado qualquer sintoma.
O que é pré-excitação ventricular em criança
O coração tem um sistema elétrico próprio. O estímulo nasce no átrio, a câmara de cima, e passa para os ventrículos por um único caminho, que funciona como um filtro e controla a velocidade da passagem.
Esse atraso natural dá tempo para os ventrículos se encherem de sangue antes de bater.
Na pré-excitação, existe um segundo caminho, chamado via acessória. É um pequeno feixe de tecido que conecta átrio e ventrículo e que se formou ainda na gestação. Por ele, parte do estímulo chega aos ventrículos sem passar pelo filtro, e por isso eles são ativados mais cedo.
Como o eletrocardiograma mostra a via acessória
O eletrocardiograma em criança registra a atividade elétrica do coração. Na pré-excitação, ele mostra um intervalo mais curto entre a ativação dos átrios e a dos ventrículos e uma deformação típica no início do registro do ventrículo, chamada onda delta. Muitas vezes, esse é o único sinal da via acessória.
Padrão de pré-excitação ou síndrome: qual a diferença
Quando o eletrocardiograma mostra a via acessória e a criança não tem nenhum sintoma, falamos em padrão de pré-excitação. Foi o caso da criança que atendi em dezembro.
Quando, além do achado no exame, a criança tem crises de taquicardia ligadas a essa via, o quadro recebe o nome de síndrome de Wolff-Parkinson-White. A diferença importa porque muda a urgência da investigação e a indicação de tratamento.
Sintomas que podem aparecer
A crise típica é uma taquicardia em criança que começa e termina de repente, com o coração muito acelerado. Pode vir acompanhada de:
- sensação de coração disparado ou batendo no pescoço;
- palidez, tontura, mal-estar ou dor no peito;
- em bebês, irritabilidade, recusa para mamar, suor e respiração rápida;
- raramente, desmaio.
Em situações raras, a via acessória pode conduzir estímulos muito rápidos dos átrios para os ventrículos e causar uma arritmia grave. É esse risco, pequeno mas real, que a investigação procura estimar.
Como é a investigação
A avaliação começa pela conversa com a família e pelo exame físico. Depois, alguns exames ajudam a entender o comportamento da via acessória.
O ecocardiograma verifica se o coração tem estrutura normal, porque a pré-excitação pode estar associada a algumas cardiopatias.
O Holter de 24 horas registra o ritmo ao longo de um dia inteiro e mostra se a pré-excitação está sempre presente ou se aparece e desaparece. Quando ela é intermitente, isso costuma sugerir uma via de menor risco.
O teste ergométrico registra o coração durante o esforço na esteira. Se a pré-excitação desaparece de forma súbita com o aumento dos batimentos, esse também é um sinal de via de menor risco.
Quando os exames não esclarecem o risco, ou quando há sintomas, o estudo eletrofisiológico, feito com cateteres dentro do coração, mede diretamente a capacidade de condução da via.
Tratamento por ablação
Quando indicada, a ablação por cateter é o tratamento que elimina a via acessória. Durante o estudo eletrofisiológico, o médico eletrofisiologista localiza a via e aplica energia em um ponto muito pequeno para interromper a condução.
O procedimento é feito em centro especializado, com a criança sedada ou anestesiada.
A indicação depende dos sintomas, do risco estimado da via, da idade e do peso da criança. Em crianças sem sintomas e com via de baixo risco, muitas vezes a conduta é apenas o acompanhamento. Como todo procedimento, a ablação tem riscos e não tem resultado garantido, e isso é discutido com a família antes de qualquer decisão.
O que muda na cirurgia
Encontrar uma pré-excitação antes de uma operação não significa, em geral, cancelar a cirurgia. Significa planejar com mais cuidado.
A equipe de anestesia é informada do achado, a criança fica monitorizada durante todo o procedimento e alguns medicamentos são escolhidos levando em conta a via acessória.
Em cirurgias eletivas, como a retirada da adenoide, o cardiopediatra pode recomendar completar a investigação antes, para operar com mais segurança. Essa conversa é feita com o cirurgião e com o anestesista, e a família participa da decisão. A página sobre avaliação cardiológica pré-operatória explica quando essa consulta é indicada.
Quando procurar atendimento de urgência
Procure o pronto-socorro ou ligue 192 (SAMU) se a criança com pré-excitação tiver:
- coração muito acelerado que não para depois de alguns minutos;
- desmaio, principalmente durante esforço;
- falta de ar, palidez intensa ou suor frio durante uma crise;
- em bebês, recusa para mamar com moleza e respiração rápida.
Como acompanho a pré-excitação ventricular em criança
Atendo crianças com esse achado no consultório da Clínica Neuromaster, em Águas Claras, e por teleconsulta, quando a família já tem o eletrocardiograma e outros exames para revisar. Peço os exames necessários, interpreto os resultados com a família e, quando há indicação de estudo eletrofisiológico ou ablação, oriento o encaminhamento para um centro de eletrofisiologia pediátrica.
Perguntas frequentes sobre pré-excitação ventricular em criança
O laudo do meu filho fala em pré-excitação. É grave?
Na maioria das vezes, não é uma emergência, mas precisa de avaliação com o cardiopediatra. Muitas crianças com esse achado nunca têm sintomas. Em uma parte delas, porém, a via acessória pode causar taquicardias e, raramente, arritmias graves, e a investigação serve para estimar esse risco.
Pré-excitação ventricular em criança impede a cirurgia?
Em geral, não impede, mas pode mudar o planejamento. O cardiopediatra avalia o risco da via acessória e orienta a equipe de anestesia sobre a monitorização e os cuidados no centro cirúrgico. Em alguns casos, a recomendação é investigar melhor antes de uma cirurgia eletiva.
Qual a diferença entre o padrão e a síndrome?
A diferença está nos sintomas. Fala-se em padrão de pré-excitação quando o eletrocardiograma mostra a via acessória e a criança não tem queixas. A síndrome é quando, além do achado no exame, a criança tem crises de taquicardia ou outros sintomas ligados a essa via.
A ablação resolve o problema de vez?
Na maioria das crianças em que é indicada, a ablação elimina a via acessória, mas nenhum procedimento tem resultado garantido. Existe chance de a via voltar a conduzir e há riscos próprios do procedimento, que são explicados à família antes. A indicação depende dos sintomas, do risco da via, da idade e do peso da criança.
Precisa de uma avaliação? Consultas presenciais na Clínica Neuromaster, em Águas Claras (Brasília, DF), e teleconsulta para todo o Brasil e o exterior.
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Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica. Em caso de emergência, procure o pronto-socorro ou ligue 192. Texto de responsabilidade do Dr. Alberth Tavares, cardiologista pediátrico, CRM-DF 16931, RQE 14409. Publicado em 20/12/2024, atualizado em 16/10/2026.


